Natal da Amazônia – Frei Atílio, OFM

 

Em carta aos confrades, Frei Atílio Battistuz, OFM, missionário na Selva Amazônica peruana, narra suas experiências vividas durante os festejos de final de ano. É um interessante relato de uma experiência missionária e também um questionamento para os padrões da civilização ocidental.fraatilio

Feliz Ano novo!

Voltei à civilização. Quer dizer, à “nossa civilização”, depois de 19 dias desconectado. Viajamos em dois, o outro frei voltou depois do Natal e eu continuei até a última comunidade, permanecendo um dia em cada povoado. Desconectado significa sem internet, sem celular, sem telefone, sem televisão, sem rádio, sem luz elétrica (na melhor das hipóteses, tem três horas por dia, no anoitecer até às 21:00 horas), sem notícias, sem comunicação. Sem muitos outros confortos, como água potável (tem que levar), banheiro, chuveiro, cama (o costume é dormir no chão e sem colchão – eu prefiro a rede), sem privacidade. Mas também sem muitas outras coisas: sem estresse, sem depressão, sem agitação, sem barulho, sem tumulto, sem violência, sem confusão (pelo menos não tenho presenciado, ou são muito sutis), sem nervosismo, sem consumismo.

A lista pode continuar: sem professores, sem médicos, sem transporte, sem governo, sem Igreja, mas não é minha intenção fazer uma descrição ou análise da realidade, porque existem muitas outras coisas: pobreza, fome, analfabetismo, e o que é pior, muita exploração. É apenas para dizer que na verdade é um outro mundo, diferente do nosso: outra realidade, outra cultura, outra mentalidade, outros meios de transporte, outra relação com o tempo, com as coisas, com o trabalho, com as pessoas, outro modo de viver e de ver o mundo e a vida.

Mais difícil do que desconectar-se é conectar-se em outra frequência, mudar de “programa” e de “sheep”. Eu tenho meus equipamentos, painel, bateria, lâmpadas, computador disponível 24 horas, projetor, caixa de som, impressora, carregador de pilhas, lanternas, tudo portátil e com energia solar. A tentação é de achar que o nosso mundo é o certo e “somente” eles é que têm que mudar. Na verdade é sempre um encontro e um diálogo, nem sempre fácil, e com muitas injustiças, dominações e explorações ao longo da história e da evangelização. Por estes lados a Igreja continua colonizadora, e ninguém está livre deste perigo. É difícil libertar-se disto.

A inculturação, do Evangelho e dos missionários continua um desafio. Em 2013 eu subi o Rio Tapiche em janeiro, março (Páscoa), junho, agosto (festa da padroeira) e dezembro (Natal), sem contar as duas viagens de reconhecimento em 2012. Levamos visitas de missionários por três oportunidades. Aos poucos os lugares começam a ficar familiares, as pessoas começam a ter nome, a ganhar rosto, identidade, história e algumas coisas começam a ser mais habituais. As interrogações, os questionamentos, o espírito crítico continuam. E espero que nunca acabem! Como também o estranhamento, a admiração e a contemplação! É preciso manter vivos o profetismo e a esperança!

O Natal e a passagem do ano foram sem luzes, sem pisca-pisca, sem enfeites, sem vitrines para ver, sem fogos de artifício, sem multidão, sem barulho, sem ceia, sem vinho, sem champanhe, sem presentes, sem abraços dos amigos. Não nego que me senti sozinho, com muitas lembranças, saudades e com momentos de tristeza e vontade de chorar. Mas também não faltaram momentos de alegria, de renovação da esperança e fortalecimento da vocação missionária.

Celebrei a Missa do Galo numa capelinha nova, feita pela própria comunidade (o povo ainda espera que o bispo ou os missionários façam as igrejas), de chão batido, coberta de folhas de palmeira e as paredes de lascas de tronco de palmeira, iluminada pelos focos que eu levei, sem solenidade, mas muito aconchegante, numa comunidade de camponeses. Nada de romântico, mas muito simples e real. Afinal de contas, o que é ENCARNAÇÃO, e o que celebramos no Natal? Às vezes estamos tão habituados às coisas externas, aos costumes, aos ritos, que nem nos assustamos ou nem estranhamos mais a pobreza, a exclusão, e as dificuldades do menino do presépio e que o caminho de Deus foi exatamente de sair de si, de ir ao encontro do diferente, de tornar-se outro, de assumir uma realidade, uma história e um povo bem concretos. O caminho de Deus, no Natal, foi de mergulhar, humilhar-se, destituir-se de poder, de glória, de seguranças. O caminho de Deus foi de aproximar-se, tornar-se irmão, humanizar-se. A solidão e as distâncias da selva ajudam também a meditar e a fazer teologia. Cada gira missionária é sempre um desafio novo de encarnar-se e de viver o Natal.

 

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