Frei Atílio fala das missões populares na Amazônia

amazonia_altoDe 20 de janeiro a 13 de fevereiro, 26 missionários realizaram missões populares na Paróquia de Aucayo, às margens do Rio Amazonas, próximo a Iquitos, Loreto-Peru (o mesmo rio que no Peru se chama Amazonas, quando passa a fronteira com o Brasil, se chama Solimões, e receberá outra vez o nome de Amazonas depois que se junta com o rio Negro). Dentre os missionários, provenientes do Peru, Argentina e Brasil, 12 eram frades (9 vindos do Brasil, sendo um da Província da Imaculada, dois da São Benedito, três da Santa Cruz e três do Santíssimo Nome e os três da fraternidade do Projeto Amazônia), duas religiosas franciscanas e 12 leigos e leigas, num total de 16 homens e 10 mulheres. Inicialmente estava previsto e tudo estava organizado para ser na Paróquia de São Paulo de Loreto, próximo à fronteira com o Brasil, onde estão os frades, mas devido a ameaças a um frade pelos “cocaleiros”, os próprios animadores das comunidades ficaram preocupados e não acharam oportuno ir para lá com uma turma tão grande. Aucayo também é uma paróquia franciscana. Isto é, desde o início – há uns 60 anos – até um ano atrás foi dos frades. O padre diocesano que está lá chegou há menos de um ano. Como estava tudo programado, os missionários, todos com passagem confirmada, uma semana antes fizemos consulta ao pároco de Aucayo, e ele aceitou a proposta. Penso que ele não imaginava o que seria, quando disse sim.

As missões tiveram dois blocos de objetivos. O primeiro é mais pastoral: (1) anunciar a Boa Nova de Jesus Cristo de que o Reino está próximo; (2) animar a vida cristã nas comunidades; (3) detectar novas lideranças comunitárias. O segundo bloco de objetivos é de caráter mais vocacional: (1) Oferecer a irmãos e irmãs (consagrados e seculares) a possibilidade de uma experiência missionária na Amazônia e um discernimento missionário; (2) sensibilizar os irmãos da Ordem da necessidade de continuar e fortalecer a presença franciscana na Amazônia, com novos missionários e novas fraternidades.

A programação foi pensada em três momentos: 1) acolhida, ambientação, entrosamento, formação das fraternidades e preparação próxima, em Iquitos; 2) a missão propriamente dita, na paróquia; e 3) avaliação, confraternização final, também em Iquitos.

O que fizemos? A presença na paróquia foi de 23 de janeiro a 09 de fevereiro, com celebração de abertura no dia 24 de janeiro e celebração de encerramento no dia 09 de fevereiro. A paróquia foi nucleada em áreas, por critério geográfico para facilitar os deslocamentos, e os missionários, organizados em cinco fraternidades com cinco missionários cada uma (uma de seis). Cada fraternidade ficou responsável por uma zona, tendo estabilidade em uma comunidade maior, e daí deslocando-se para as outras. A programação foi bem livre e cada fraternidade pode fazer a sua programação. Isto, em primeiro lugar, porque a paróquia, devido ao imprevisto já citado, não nos esperava e não tinha nada programado, e depois, porque os “pueblos” ou casarios são muito diferentes uns dos outros, alguns com mais de cem famílias e outros com apenas seis famílias, alguns com vários animadores (ministros), outros sem animadores, alguns tem capela, a maioria não tem (algumas apodreceram, outras o rio levou com a enchente), em alguns são todos católicos, em outros a maioria é evangélica, alguns com estrutura para hospedagem, outros com mais dificuldades, embora a realidade social e econômica seja a mesma. Na verdade a programação era visitar as comunidades, partilhar a vida e conviver com o povo, com o tema “O Reino de Deus está próximo”. Tínhamos perfeita clareza de que nossa presença deveria ser para motivar, para animar, para levar esperança, anunciar a alegria de ser cristão e de pertencer ao Reino de Deus e não nos preocupar com doutrina, com exigências morais, nem de impor condições ou fazer exigências, muito menos de julgar ou condenar. No total visitamos 30 “pueblos”, permanecendo em cada um tempos diferentes, conforme as circunstâncias. Entramos em todas as casas, visitamos todas as famílias (existem mais famílias que casas – encontramos até quatro famílias numa casa), fizemos estudos bíblicos, encontros com crianças, celebramos a eucaristia, uns participaram de trabalho comunitário, outros tiveram a oportunidade de participar de uma assembleia. Onde nos pediram, fizemos batizados. A acolhida e a recepção foi encantadora. É um povo silencioso, de poucas palavras, sem nada para esconder nem para mostrar e decididamente sem pressa, mas a palavra que mais ouvimos foi “passe” (entre). Não faltou convite para uma “chicha” (refresco de milho), um “massato” (bebida feita de mandioca, que se toma em processo de fermentação), ou mesmo um “bocadito” de peixe assado na grelha com mandioca, uma “humita” de milho verde (pamonha), e até mesmo um almoço.

amazonia1 Muitas coisas chamaram atenção e preocuparam os missionários:

 As dificuldades próprias da vida diária: a ameaça e a insegurança constante das enchentes, a dificuldade de comunicação e transporte, o próprio cultivo e cuidado das roças que, pela humidade e calor, o mato cresce rapidíssimo e toma conta de tudo.

 A fragilidade da Igreja: pouca presença e pouca visita do padre, que faz duas visitas por ano e dois encontros de formação na sede paroquial (em muitas paróquias sequer se faz uma visita anual a todos os casarios); poucos animadores e alguns já idosos; poucos lugares de culto (capelas), e muitos já não fazem a celebração dominical; poucos catequistas e quase não há catequese.

 A ausência de jovens: há muitas crianças e adultos ou idosos e pouquíssimos jovens. Os jovens se vão para as cidades para estudar, para procurar um trabalho (diferente), ou para as duas coisas, e já não voltam. Seguramente que vão também atraídos pelos encantos da cidade.

 O processo migratório muito forte: ocasionado principalmente pelas últimas enchentes (2011 e 2012), que foram maiores do que o normal.

– A destruição da mata e poluição: nesta região já não há mais madeira, está há dias de distância; o lixo está em toda parte.

 Projetos econômicos de grandes empresas, principalmente estrangeiras, de monoculturas e outros, que contam com o apoio do governo. Pouca gente tem consciência disso e de suas consequências, porque vêm acompanhados de um discurso atraente e de presentes.

 Um povo esquecido, pelo governo, pela sociedade, pela Igreja.

Diante de tudo isso fica uma pergunta: qual será o futuro da Amazônia e de sua gente?

amazonia5Deixamos algumas sugestões para o pároco, bem como para as Comunidades, simples e elementares, tais como: marcar mais presença nas comunidades, visitar mais vezes e com mais tempo – as comunidades estão sedentas da presença da Igreja; ter mais animadores e mais formação; necessidade de garantir a celebração dominical; importância da capela como identidade e lugar de culto. Sabemos do custo que significa viajar pelos rios, e da falta de recursos, mas as comunidades podem colaborar!

É difícil avaliar o efeito das missões, ou quantificar um resultado atingido. Até mesmo porque se fazem missões pela mística do Reino de Deus, e não pelos resultados e muito menos se pode avaliar pelo critério capitalista da relação “custo-benefício”. Os resultados só seriam percebidos a longo prazo, mas algumas reações do povo são significativas: “nunca recebemos visitas de tão longe”; “pensávamos que estávamos esquecidos pela Igreja”; muitos ouviram a pergunta suplicante “quando vão voltar outra vez?”, ou “não se esqueçam da gente”. Nas despedidas não faltaram emoções e lágrimas.

Seguramente, o impacto maior das missões foi sobre os missionários. O segundo bloco de objetivos parece que foi mais atingido do que o primeiro. A experiência confirmou o que já sabíamos: “não é o missionário quem leva Deus, é Deus quem leva o missionário”.

amazonia2 Experiências de mergulhar em outra cultura e outra realidade, a insegurança e o medo diante do desconhecido, de depender de outros, de navegar pelos rios, de andar em pequenos botes, a dificuldade de equilibrar-se nas canoas ou de andar sobre troncos, o banho de rio ou nas “quebradas” (igarapés), a falta de banheiro, a tempestade em plena viagem no meio do rio, a imponência da natureza, a dificuldade de transporte e de comunicação, o viver com pouco e com sobriedade, dormir na rede ou no chão, experimentar (sem alternativa) outros tipos de comida, adentrar-se na selva, a marca e as chagas dos mosquitos, o tremendo da escuridão, ouvir mitos e lendas em seu próprio ambiente, … são experiências indescritíveis que cada um tem que fazer e passar por elas. E não só isso, o contato com o que a Amazônia tem de mais precioso, a sua gente, com suas histórias, suas experiências e conhecimentos, sua cultura, seus sofrimentos e esperanças, sua simplicidade, sua alegria, seu sorriso, sua beleza, … é algo muito pessoal.

Um dos momentos mais ricos e significativos foi a partilha dos missionários, das experiências e sentimentos pessoais. Transcrevemos alguns: “Levo uma lição de vida, percebi que outro modo de vida é possível, viver com o mínimo do mínimo e com felicidade”. “Foi um presente muito grande da parte de Deus, uma experiência muito bonita”.  “A Amazônia é um mistério, foi uma experiência muito grata, saí da cidade e fui até o mais profundo da selva”. “Me considero uma mulher aventureira, porém, quando entrei na selva tremi, senti terror, me encontrei com sapos, quando me banhava no rio parecia ver serpentes, me faltava respiração. O maior medo foi da noite, da escuridão. Essa realidade me fortaleceu”. “Foi como um salto no nada, não estava convencida de que seria para mim, que iria modificar minha vida, fui confrontada com meus medos e pude sair do meu individualismo. O medo é sempre proporcional à experiência de Deus”. “Estou profundamente agradecida, me sinto um nova pessoa”. “Encontrei-me muito nesta realidade, gosto de trabalhar com o povo. Senti-me desafiada a trabalhar a esperança e o desafio de fazer itinerância e seguir com as comunidades ribeirinhas”. “Foi desafiante a ociosidade. Nos anos de frade foi o tempo em que fiquei mais quieto”. “Amazônia é um mundo totalmente novo para mim. Foi um grande prêmio, um presente para mim e um desafio”.

amazonia3“Houve dias em que estive desanimado, muitas dificuldades, não dormia, não ia ao banheiro, banho no rio… levo marcas de mosquitos em todo o corpo. Agradeço toda a equipe que preparou…” “Vim com a intensão de aprender e falar pouco. Fiz muito pouco pra eles, mas eles fizeram muito pra mim. Volto com outra visão de mundo. É possível viver com pouco, valorizar as coisas mais simples”. “A missão não foi pesada e não foi difícil devido ao meu grupo, à fraternidade”. “Essa missão contribuiu muito para minha formação pessoal. Outros frades na formação podem fazer essa experiência. O que tivemos foi uma lição de vida”. “Antes de vir um confrade, olhou para mim e disse: o que você tem a oferecer para aquele povo? Tenho a levar mais do que trouxe, uma experiência que quero repassar aos confrades, aos jovens que acompanho no discernimento vocacional”. “Ficará a saudade, sentiremos falta dos irmãos, da acolhida, do abraço amigo que recebemos em cada casario, o dar valor às pequenas coisas”. “O que mais me chamou a atenção foi a simplicidade das pessoas em receber os missionários, saio com uma experiência muito rica”. “Foi uma experiência riquíssima. Temos que agradecer a Deus o partilhar nas comunidades. Recebemos mais do que oferecemos”. “Pude fazer muito silêncio. O carinho das pessoas faz muito bem”. “Vim com muito material, com a inquietude de falar de Deus e de ensinar e quando cheguei vi que não servia para nada, era outra metodologia. Baixou meu ânimo, porque sentia que não fazia nada, depois entendi que isso faz parte, talvez me ensinou a ser mais humilde”. “Esta missão me convida à conversão pessoal, existencial e pastoral”. “Vou muito satisfeito; sabia que a realidade é dura, mas fazer a experiência é mais provocante”.

Dois sentimentos foram praticamente unânimes: o de que recebemos mais do que oferecemos, “Sinto que recebi, recebi, recebi, e não fiz nada” se expressou alguém; e o sentimento de gratidão: “Obrigado à Ordem e a cada irmão por ter ajudado este frade menor a crescer na sua vocação”. “Agradeço à Ordem, aos frades, à Província a oportunidade de estar aqui” foi o testemunho mais repetido pelos frades.

Frei Atílio -OFM, via site Província Imaculada Conceição do Brasil http://bit.ly/1cfdQYR

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